09/12/2015
A viagem fantástica - Questões sobre o processo de mudança.
 
A terra gira ao redor de si mesma a uma velocidade de 14,76 quilômetros por segundo. Ao mesmo tempo, gravita em torno do sol, em órbita elíptica, na qual percorre distâncias colossais, atingindo a marca de 29,8 quilômetros por segundo. O sol, por sua vez, gira sobre si mesmo e, em órbita espiral, move-se ao redor do eixo da Via Láctea, a uma velocidade fabulosa, jamais passando duas vezes pelo mesmo ponto. Durante esse passeio cósmico, estrelas vão morrendo, outras nascendo, cruzamos com galáxias bebês, galáxias jovens, adultas e velhas.

Enquanto essa viagem ocorre, nós, terráqueos, temos a sensação de que aqui tudo permanece estável, apesar das profundas e contínuas modificações a que está submetida nossa santa terrinha. E mais: em nosso ser, os efeitos do tempo, o antagonismo entre as forças anabólicas e catabólicas, além das contínuas experiências intelectuais e afetivas, produzem, a todo momento, alterações de diversos matizes, algumas contundentes, outras sutis.

Não obstante, temos a impressão de que permanecemos os mesmos. Na verdade, todo o universo participa de uma Viagem Fantástica rumo ao vir a ser.

A situação das empresas não poderia ser diferente. Apesar de sua aparente estabilidade, tudo dentro delas, e também à sua volta, movimenta-se e modifica-se a uma velocidade cada vez maior, rumo ao desconhecido, pois ela é parte integrante da caravana que realiza essa viagem.

Nesse ambiente continuamente inovador agem os responsáveis pela direção dos negócios. Perguntamos: Como sua empresa e você têm conduzido a gestão da mudança?

Por favor, não responda agora. Preparamos uma lista de perguntas que deverão ser respondidas preliminarmente e que têm por objetivo ajudá-lo a responder, com propriedade, à pergunta inicial.

1. Sua empresa e você conseguem perceber o nascimento e o deslocamento das grandes ondas inovadoras? Estando atentos, com algum esforço, poderão surfar em sua “crista”, realizando bons lucros. Se, ao contrário, estiverem cômoda e displicentemente descansando na praia, poderão ser engolidos por um Tsunami.

2. Sua empresa e você acompanham o fluxo e o refluxo dos capitais nacionais e internacionais administrados pelos grandes fundos financeiros? Observam os discursos e os movimentos dos grandes líderes nacionais e internacionais, assim como o de seus opositores? Se isso não é feito, a qualquer momento sua empresa pode ser surpreendida pela explosão de uma “bomba” bem no centro de suas instalações, e você pode ter a sua cabeça decepada.

3. O capim, com suas raízes mágicas, retira da terra o alimento para os herbívoros. A vaca come o capim e produz o leite. Para tanto, é necessário que seja enxertada por um touro e que gere um bezerro. O leiteiro retira o leite e leva-o para o mercado. Nesse processo, quem é mais importante: a terra, o capim, a vaca, o touro, o bezerro, ou o leiteiro? Sua empresa e você conseguem compreender que a unidade das diversidades é o que realmente importa? Conseguem perceber e orquestrar a beleza da harmonia entre variados contrastes? Enxergam que o despontar de um indivíduo decorre do trabalho silencioso e competente de muitos outros? Sobre a questão da unidade, os médicos nos brindaram com a seguinte história: Contam eles que os diversos órgãos do corpo se reuniram para discutir a importância de cada um deles e eleger um rei. Durante a reunião, o cérebro requisitou para si a posição privilegiada. Imediatamente foi contestado pelo coração, responsável pelo bombeamento do sangue, que também desejava ser rei. O fígado não concordou. Afirmando ser mestre em alquimia, requisitou a coroa para si. No correr da calorosa discussão, revoltado com a arrogância dos colegas, um pequeno esfíncter parou de funcionar e todos começaram a passar mal. O cérebro gritou: Vamos morrer sufocados em nossos dejetos! O fígado, desnorteado, afirmou ser incapaz, apesar de sua ciência, de dar conta de tantos gases poluentes. Desesperados, cérebro, coração e fígado pediram ao esfíncter revoltado que voltasse a funcionar. Então, ele impôs: declarem que sou eu o rei. Pouco afeito à luta pelo poder, logo depois foi convencido pela modesta uretra e voltou a funcionar, para alívio de todos. Voltando a viver saudavelmente, a comunidade continuou a reunião e, rapidamente, chegou às seguintes conclusões: só existe um órgão: o corpo. Só existe uma função: a vida.

4. A sua empresa e você conseguem perceber que a empresa é um organismo vivo? Conseguem entender que todas as unidades desse organismo são vitais e que cada unidade influencia as demais unidades e o todo? Estão conscientes de que o todo é maior e mais importante que o somatório das partes que o compõe e de que os interesses individuais devem estar subordinados aos interesses do conjunto, independentemente do tamanho e do peso individual?

5. Passaram-se muitos anos, mas continua vibrando no ar a máxima do “Velho Guerreiro”, nosso querido e saudoso “Chacrinha”, comunicador inigualável de nossa TV: “Quem não se comunica, se trumbica!”. Sabendo-se que a gestão da mudança deve ter como suporte um amplo e eficaz sistema de comunicação, perguntamos: sua empresa e você estão dispostos a permitir que as informações circulem livremente, de cima para baixo, de baixo para cima e lateralmente, para que os programas de mudança sejam conhecidos de todos e incentivados por todos, sem considerar, preconceituosamente, que a conversa “chegou da geral”?

6. A liderança autêntica não pode ser imposta por decreto. Ela precisa ser percebida pelo liderado. A empresa e você estão preparados, intelectual e emocionalmente, para liderar um programa de mudanças? Contam com a confiança do corpo funcional, de modo a evitar a ocorrência de oposição, em especial a oposição dissimulada?

7. Os contraventores que bancam o Jogo do Bicho, apesar da clandestinidade, ganharam a confiança dos apostadores com a seguinte declaração pública, confirmada pela prática diária: vale o que está escrito. Perguntamos: a empresa e você conseguem confirmar o discurso pela prática, de forma que os programas apresentados sejam encarados como autênticos, evitando, desse modo, que os colaboradores sintam receio de que os planos escondam objetivos escusos sob a capa simuladora da mudança?

8. Sabendo-se que abandonar o autoritarismo é tarefa difícil até mesmo para os santos, devemos supor muito mais intensa a luta de libertação a ser travada pelos homens de negócio, acostumados que estão ao exercício do controle e do poder. Perguntamos: sua empresa e você estão suficientemente maduros para admitir que visões diferentes daquelas que adotam sejam apresentadas e testadas? Em busca de uma gestão da mudança eficaz, especialistas e notáveis estão sendo contratados para revisar processos adotados pela empresa, apresentar palestras e ministrar cursos para seus funcionários e executivos, objetivando a descoberta de “novos caminhos”? Sua empresa e você estão dispostos a fazer uma ampla redistribuição de autoridade e responsabilidade, de modo a permitir que as decisões sejam tomadas em todos os níveis, de forma integrada, permitindo que seus colaboradores venham a se sentir mais úteis e realizados como seres humanos? Lembre-se: o passado autoritário costuma debruçar-se sobre o presente inovador, gerando a indesejada e destruidora ambivalência comportamental.

9. Os economistas concordam que os investimentos em educação, em treinamento profissional continuado e em pesquisa são rentáveis. Sua empresa e você investem em educação e capacitação do quadro funcional, facilitando o sucesso dos programas de mudança e a realização profissional de seus colaboradores, ou receiam que isto possa encarecer o salário e preparar mão-de-obra especializada para uso da concorrência? Neste sentido, o que está sento oferecido a eles: cursos, leituras, palestras, vídeos, mestrados, doutorados? Ou o orçamento de educação é sempre o primeiro a ser cortado?

10. Entregar um problema para ser estudado e solucionado é como oferecer um fruto carnudo para ser sugado. Impor soluções prontas, para serem executadas sem direito de questionamento equivale a sorver o sumo do fruto e oferecer o bagaço sem sabor e sem nutrientes para ser chupado. Sua empresa e você acreditam que somente alguns “privilegiados” são capazes de criar algo novo ou incentivam o trabalho em grupo, objetivando a busca de soluções inovadoras? Admitem que seus colaboradores lhes falem com total liberdade, dedicando a suas idéias a atenção devida, incentivando e ouvindo as opiniões advindas de todos os níveis e as implantam, quando boas?

11. Sabendo-se que o exemplo de correção e de dedicação do líder sempre será o melhor treinamento e incentivo, perguntamos: Sua empresa e você adotam uma postura “rapineira” ou costumam cultivar valores éticos capazes de gerar um clima de confiança e cordialidade no relacionamento com funcionários, fornecedores, clientes e demais correspondentes?

12. Compreendem que as decisões tomadas na empresa geram efeitos que ultrapassam os limites de seus muros, influenciando a cidade em que está instalada, o estado, o país, o mundo e, quem sabe, o universo?
13. Que programas sua empresa e você desenvolveram para integrá-la na sociedade, com o objetivo de ser reconhecida como uma parceira séria e dedicada, preocupada com a ecologia, o bem estar e a segurança social?

14. Nos momentos em que estão estudando os projetos de RH, em especial as questões de recompensa e remuneração, sua empresa e você são conscientes de que estão decidindo sobre a qualidade de vida das pessoas e que essas decisões influenciam muitos segmentos da sociedade?

15. Que exemplos de cidadania e de comportamento sua empresa e você estão oferecendo aos seres humanos que trabalham em suas dependências?

Depois desse conjunto de perguntas preliminares, deveríamos voltar à questão inicial. Responda, por favor: Como sua empresa e você têm conduzido a gestão da mudança?

Independentemente da sua resposta, podemos afirmar que a gestão da mudança exige liderança sábia, liderança lídima. Antes de qualquer coisa, o gestor da mudança precisa dispor da confiança de seus liderados.